sexta-feira, junho 27, 2008

O VELHO DO BAR

Todos os dias àquela mesma hora, todos os freqüentadores daquele pobre bar situado numa das ruas mais antigas e também movimentadas o viam ali, sempre sentado na mesma mesa, tomando o mesmo café.
Até aí pode parecer algo normal. Aliás, muitas pessoas freqüentavam aquele lugar já que boa parte dos trabalhadores do centro comercial da cidade era obrigada a passar por aquele bar seja apenas por ocasião da sua localização ou por terem se habituado a fazer suas refeições já perto do seu trabalho.
O homem ia lá todos os dias fizesse sol ou caíssem as mais tórridas chuvas. Sentava-se sempre no mesmo lugar, quieto, silencioso, apenas observando com um olhar distante as pessoas que passavam pelas ruas. Parecia que estava à espera de alguém. Talvez não esperasse nada a não ser pela chegada daquela coisa a que todos os seres vivos estão sujeitos a um dia encontrar.
Como já fazia muitos anos que sem falhar sequer um dia, já não mais precisava pedir o café nem os pães que saboreava todas as manhãs. Para dizer a verdade, fazia muito tempo que a sua voz não se fazia ouvir naquele ambiente. Chegava. Sentava. Traziam o café e o pão. Comia. Olhava para as pessoas que passavam. Ia embora.
Ninguém sabia onde ele morava, nem se tinha casa, esposa, filhos. Nada. Nem mesmo do seu nome, apelido ou qualquer coisa que o identificasse ninguém mais sabia ou talvez nem tivesse qualquer importância para quem quer que fosse.
Vestia sempre o mesmo estilo de roupas e sapatos como se realmente tudo neste mundo tivesse parado num passado remoto e que o presente o castigasse em demasia. Parecia querer voltar no tempo. Voltar ao convívio de pessoas de uma época em que vivia bem, cercado de pessoas que gostavam dele, talvez de um grande amor que havia se perdido no tempo.
Algumas pessoas até cochichavam pelos cantos do bar. Chegaram em determinada época a fazer apostas sobre sua identidade. Para alguns não passava de um velho sozinho; já para outros era um louco ou até um antigo pistoleiro de aluguel que estivesse exilado naquela cidade. Por semanas tentaram descobrir alguma coisa a seu respeito. De nada adiantou. As apostas ficaram sem vencedor. O mistério continuou e com o passar do tempo nem o interesse das pessoas resistiu. Todos acabaram por esquecê-lo.
Certa manhã a cena parecia estar se repetindo. Chegou calado. Sentou-se. Serviram-lhe o café e os pães. Comeu e ficou parado por alguns instantes. Estava olhando de maneira estática para o movimento frenético das pessoas apressadas para chegar rapidamente ao trabalho quando ele começou a mudar sua expressão.
Seu rosto começou a exibir um sorriso que apesar de amarelado pelo tempo e pelo café parecia iluminar-se de um brilho intenso como se a felicidade há muito tempo escondida tivesse retornado àquele triste coração. Todos pararam para ver a cena que parecia ser improvável enquanto o mesmo senhor que todos os dias olhava para o infinito com uma expressão séria gargalhava e sorria.
De repente, as gargalhadas cessaram. Ele tomou um pedaço de papel amarelado pelo tempo e caiu. Morreu com um sorriso nos lábios e um papel nas mãos. Permaneceu ali sem que nenhuma das pessoas que viram a cena tivesse coragem de lhe prestar socorro.
Passados alguns instantes uns poucos correram em sua direção, mas de nada adiantava mais. Estava morto. Procuraram então ler o conteúdo daquele bilhete que trazia consigo em uma das mãos. Em poucas linhas e com belas letras o mistério daquele homem passava a ser revelado:
“Querido Paulo,
Por favor, me encontre no bar próximo à loja de meus pais logo cedo. Não posso nem acreditar que muito em breve estaremos finalmente juntos e seremos felizes para sempre.
Da sua eterna amada,
Ana.”
Ficou-se sabendo que ele chamava-se Paulo e que há muitos anos tinha namorado uma jovem chamada Ana e que o romance entre os dois fora proibido pelos pais dela. Ana havia falecido quando tentava atravessar a rua para fugir com seu amante atropelada por um carro e, desde então, ele passou a ir ao local combinado esperando que sua amada chegasse.
por: Luciano Oliveira dos Santos

UMA PALAVRA



Uma palavra. Era tudo de que precisava àquela hora. Já era bem tarde e procurava loucamente por apenas uma palavra.
Aquilo passava a ser desesperador para ele. Logo o homem que admirava as letras, era fascinado por tudo que se relacionava ao mundo da arte literária. Logo aquele que era apaixonado pelos livros, vivia rodeado deles, trabalhava como crítico para um jornal da cidade onde vivia. Bastava uma. Umazinha. Aquela que iria abrir as comportas do grande lago que era sua cabeça naquele momento. Tudo represado. Parado. Estático.
Agora estava ali. Na sua biblioteca particular. Cercado de livros por todos os lados dos mais diversos autores e estilos. Os volumes eram muitos. Tantos que chegavam a ser motivo de inveja para muita gente e isso o enchia de orgulho, já que num país onde tantos não sabem sequer rabiscar o próprio nome para escapar do vexame de em todo lugar que chegam serem obrigados a apresentar uma carteira de identidade que estampa essa condição em letras que não conseguem decifrar, muito embora saibam o que significa, pois todos que a pegam vêem a mesma coisa: “não alfabetizado”.
Orgulhava-se também de ser uma exceção num país onde os que sabem ler poucos são os que lêem mais que um livro por ano. Aliás, ele perdia a conta de quantos livros era capaz de ler em apenas um só ano. Uns por conta do trabalho como crítico de literatura num jornal da cidade em que morava, outros por puro prazer. Prazer em ler, descobrir culturas novas, lugares onde nunca sonhara ir antes de ler suas preciosidades. Saberia descrever, por exemplo, a parte turística e as regiões mais antigas da cidade de Lisboa. Ah Lisboa, como desejava ardentemente conhece-la!
Continuava parado. O teclado do computador à sua frente. Nada. Nenhuma palavra. Nada. A mente num vazio angustiante, que começava a trazer consigo uma enorme tristeza. As palavras, ingratas palavras o tinham deixado naquele momento.
Logo elas as suas mais fiéis companheiras, as amigas de todas as horas tinham ido todas embora deixando ele ali. Só. Sem ninguém, nem nada que o pudesse consolar.
Esperava que todos o pudessem abandonar, esquecer. A mulher poderia apaixonar-se por um homem qualquer, mais jovem, mais bonito ou atraente que ele. O filho poderia de uma hora para outra resolver de um por um ir morar sozinho, sem a presença do pai para regular sua vida.
Poderia esperar tudo. Até uma doença, mas não ficar privado da companhia delas que agora se negavam a povoar a sua mente, a encher páginas e mais páginas como fizeram até então.
O dia começava a clarear. Os pássaros nas árvores da vizinhança ensaiavam uma sinfonia. Ele ainda permanecia parado na frente do computador. Parado. Abatido cansado. Precisava dormir um pouco para recobrar as forças e voltar mais tarde para aquele mesmo lugar. Desligou o computador e foi cabisbaixo deitar-se em sua cama. O cansaço venceu a persistência. Dormiu.
Poucos minutos depois se levantou de repente assustando a mulher ao seu lado. Ela até tentou perguntar o que se passava, mas ele foi mais veloz. Ligou o computador. Começou a escrever como nunca.
por: Luciano Oliveira dos Santos