sexta-feira, junho 27, 2008

UMA PALAVRA



Uma palavra. Era tudo de que precisava àquela hora. Já era bem tarde e procurava loucamente por apenas uma palavra.
Aquilo passava a ser desesperador para ele. Logo o homem que admirava as letras, era fascinado por tudo que se relacionava ao mundo da arte literária. Logo aquele que era apaixonado pelos livros, vivia rodeado deles, trabalhava como crítico para um jornal da cidade onde vivia. Bastava uma. Umazinha. Aquela que iria abrir as comportas do grande lago que era sua cabeça naquele momento. Tudo represado. Parado. Estático.
Agora estava ali. Na sua biblioteca particular. Cercado de livros por todos os lados dos mais diversos autores e estilos. Os volumes eram muitos. Tantos que chegavam a ser motivo de inveja para muita gente e isso o enchia de orgulho, já que num país onde tantos não sabem sequer rabiscar o próprio nome para escapar do vexame de em todo lugar que chegam serem obrigados a apresentar uma carteira de identidade que estampa essa condição em letras que não conseguem decifrar, muito embora saibam o que significa, pois todos que a pegam vêem a mesma coisa: “não alfabetizado”.
Orgulhava-se também de ser uma exceção num país onde os que sabem ler poucos são os que lêem mais que um livro por ano. Aliás, ele perdia a conta de quantos livros era capaz de ler em apenas um só ano. Uns por conta do trabalho como crítico de literatura num jornal da cidade em que morava, outros por puro prazer. Prazer em ler, descobrir culturas novas, lugares onde nunca sonhara ir antes de ler suas preciosidades. Saberia descrever, por exemplo, a parte turística e as regiões mais antigas da cidade de Lisboa. Ah Lisboa, como desejava ardentemente conhece-la!
Continuava parado. O teclado do computador à sua frente. Nada. Nenhuma palavra. Nada. A mente num vazio angustiante, que começava a trazer consigo uma enorme tristeza. As palavras, ingratas palavras o tinham deixado naquele momento.
Logo elas as suas mais fiéis companheiras, as amigas de todas as horas tinham ido todas embora deixando ele ali. Só. Sem ninguém, nem nada que o pudesse consolar.
Esperava que todos o pudessem abandonar, esquecer. A mulher poderia apaixonar-se por um homem qualquer, mais jovem, mais bonito ou atraente que ele. O filho poderia de uma hora para outra resolver de um por um ir morar sozinho, sem a presença do pai para regular sua vida.
Poderia esperar tudo. Até uma doença, mas não ficar privado da companhia delas que agora se negavam a povoar a sua mente, a encher páginas e mais páginas como fizeram até então.
O dia começava a clarear. Os pássaros nas árvores da vizinhança ensaiavam uma sinfonia. Ele ainda permanecia parado na frente do computador. Parado. Abatido cansado. Precisava dormir um pouco para recobrar as forças e voltar mais tarde para aquele mesmo lugar. Desligou o computador e foi cabisbaixo deitar-se em sua cama. O cansaço venceu a persistência. Dormiu.
Poucos minutos depois se levantou de repente assustando a mulher ao seu lado. Ela até tentou perguntar o que se passava, mas ele foi mais veloz. Ligou o computador. Começou a escrever como nunca.
por: Luciano Oliveira dos Santos

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